A fertilidade masculina desempenha um papel crucial na concepção, sendo responsável por aproximadamente 50% dos casos de infertilidade em casais. Embora a saúde reprodutiva feminina seja frequentemente o foco principal, é fundamental reconhecer a importância da qualidade do esperma e dos hábitos de vida do homem no processo de gravidez.
Para que a gravidez ocorra, é essencial que o esperma possua características ideais, que incluem:
- Quantidade adequada de espermatozoides na ejaculação: A concentração espermática, medida em milhões de espermatozoides por mililitro de sêmen, deve ser superior a 15 milhões/ml, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
- Mobilidade espermática suficiente: Os espermatozoides precisam ser capazes de se mover de forma eficaz para alcançar o óvulo.
- Morfologia espermática normal: A forma dos espermatozoides é importante para sua funcionalidade, sendo ideal que possuam cabeça ovalada e cauda reta.
Caso a concepção não ocorra após meses de tentativas, a realização de exames por ambos os parceiros é fundamental. No homem, o seminograma é a análise mais comum, avaliando a quantidade, mobilidade e morfologia dos espermatozoides.

A Influência da Saúde Paterna na Fertilidade e no Desenvolvimento do Filho
Contrariando crenças antigas, a saúde masculina prévia à concepção é decisiva para o destino reprodutivo do casal e para a saúde futura do filho. Estudos científicos, como os publicados na revista médica The Lancet, demonstram que a qualidade do esperma, os hábitos de vida e a idade do homem impactam diretamente na concepção, no desenvolvimento embrionário e, consequentemente, na saúde da descendência.
A saúde biológica e comportamental do homem, que abrange dieta, peso, consumo de substâncias, qualidade do sono e níveis de estresse, pode:
- Modificar a qualidade espermática.
- Aumentar o risco de dano no DNA espermático.
- Alterar mecanismos epigenéticos que afetam o embrião e o futuro filho.
Um estudo publicado em março de 2026 pela The Lancet enfatiza a necessidade de uma saúde preconcepcional mais equitativa e a importância de considerar os fatores masculinos na prevenção.

O médico ginecobstetra especialista em fertilidade Sergio Pasqualini destaca que "a saúde do varão cumpre um papel muito mais importante do que historicamente lhe foi atribuído. Não só influencia a possibilidade de conseguir uma gravidez, mas também a qualidade embrionária e o desenvolvimento inicial da gravidez". Assim, o ambiente espermático é considerado tão relevante quanto o ambiente ovular e uterino.
Evidências Científicas: Saúde Paterna e o Futuro da Gravidez
A publicação da The Lancet aponta que o esperma masculino não é apenas um "veículo de DNA", mas também transporta informações genéticas, epigenéticas e marcas biológicas que podem modificar a expressão do DNA durante o desenvolvimento embrionário. O médico clínico Ramiro Heredia explica que "o conceito central é que o esperma não transporta apenas DNA: também carrega marcas biológicas e epigenéticas que podem modificar como esse DNA se expressa uma vez que o desenvolvimento embrionário começa".
Fatores como tabagismo, obesidade e distúrbios metabólicos estão associados a uma maior fragmentação do DNA espermático e a uma menor probabilidade de concepção. Estima-se que a infertilidade afete aproximadamente 1 em cada 6 pessoas em idade reprodutiva no mundo, com uma proporção considerável desses casos envolvendo fatores masculinos.
As experiências de vida precoces, o ambiente social e o estado de saúde mental do homem também podem deixar marcas que impactam sua capacidade reprodutiva anos depois. O médico especialista em reprodução humana e fertilidade, Sergio Papier, afirma que "hoje sabemos que a fertilidade masculina é também um marcador de saúde geral".
A Idade Paterna: Riscos e Efeitos Associados
A idade paterna, muitas vezes negligenciada nas discussões sobre fertilidade, adquire crescente relevância. "A idade paterna também importa, embora seu impacto seja diferente ao da mulher", adverte Pasqualini. Com o envelhecimento masculino, aumentam as alterações no DNA espermático e as mutações espontâneas, o que se correlaciona com um maior risco de distúrbios do neurodesenvolvimento, como autismo ou esquizofrenia, bem como doenças genéticas raras.
Heredia observa que, com o avanço da idade, "observam-se quedas no volume seminal, na motilidade e na morfologia espermática, juntamente com mais fragmentação do DNA e mais mutações novas na linha germinal". Isso pode resultar em um maior risco de aborto espontâneo, parto prematuro, baixo peso ao nascer e complicações perinatais. A postergação da paternidade, um fenômeno global em aumento, reforça a necessidade de atenção a esses fatores.

Além do Espermograma: Novas Fronteiras na Fertilidade Masculina
A fertilidade masculina é hoje considerada um marcador de saúde integral, e não apenas reprodutiva. Tradicionalmente, o espermograma era utilizado unicamente para avaliar a capacidade reprodutiva. Atualmente, sua interpretação se expande como um indicador global da saúde masculina. Papier ressalta que "diversos estudos demonstraram que homens com alterações no sêmen apresentam com maior frequência doenças metabólicas, problemas cardiovasculares, inflamação sistêmica e estresse oxidativo". Assim, o espermograma pode ser visto como "uma janela para a saúde geral do homem, não apenas para sua fertilidade".
Novos desenvolvimentos permitem avaliar a fragmentação do DNA espermático, um dado que prediz com maior precisão a qualidade embrionária, o risco de aborto e a probabilidade de sucesso em tratamentos. Além disso, "o estudo da microbiota seminal revela que a composição bacteriana do sêmen pode influenciar a implantação e os resultados da gravidez, o que abre a porta para tratamentos personalizados", segundo Papier. A integração de inteligência artificial e modelos preditivos possibilita analisar grandes volumes de dados, identificar padrões invisíveis ao olho humano e desenhar tratamentos reprodutivos personalizados.
Mudanças no Estilo de Vida e Prevenção: Recomendações para Futuros Pais
A preparação para a paternidade idealmente deve começar entre três e seis meses antes de buscar uma gravidez. "O espermatozoide leva aproximadamente entre 70 e 90 dias para amadurecer. Esse é o período mais sensível ao meio ambiente, sendo crucial e onde o homem pode influenciar ativamente sua fertilidade", destaca Pasqualini.
As recomendações dos especialistas incluem:
- Manter um peso saudável.
- Realizar atividade física regular.
- Evitar tabaco e álcool.
- Melhorar a alimentação, preferencialmente anti-inflamatória e baixa em ultraprocessados.
- Dormir adequadamente.
- Reduzir o estresse.
Heredia acrescenta que "controlar as doenças crônicas e revisar as exposições laborais ou ambientais potencialmente tóxicas são passos respaldados pela biologia que hoje conhecemos". O controle de doenças preexistentes, a revisão de medicação habitual e a avaliação de fatores ambientais ou laborais também fazem parte da estratégia preventiva. O espermograma e os estudos hormonais podem servir como ponto de partida, e em casos específicos, a criopreservação de sêmen é recomendada como alternativa preventiva.
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Desafios e Consensos na Prática Médica
Apesar da crescente evidência científica, a saúde preconcepcional masculina ainda não está plenamente incorporada na prática clínica. "Ainda há um déficit de consciência sobre este tema, mesmo dentro do âmbito médico. A fertilidade continua muito centrada na mulher, quando na realidade é um processo de casal", reconhece Pasqualini.
Heredia concorda que "a saúde pré-concepcional continua estruturada quase por completo em torno da mulher, enquanto o homem fica muitas vezes fora do radar sanitário. Não porque não importe, mas porque o sistema se organizou historicamente assim".
Os especialistas propõem que a consulta preconcepcional inclua a avaliação integral do homem: história clínica focada em hábitos e antecedentes, controle de peso, pressão arterial, glicemia, perfil lipídico, avaliação de infecções sexualmente transmissíveis e revisão de vacinação, além de estudos específicos quando houver indicação.
O exercício moderado, por exemplo, demonstrou melhorar a qualidade do esperma ao aumentar os níveis de testosterona e reduzir o estresse oxidativo. O sobrepeso e a obesidade, por outro lado, estão diretamente relacionados à redução na qualidade dos espermatozoides. O consumo excessivo de álcool diminui os níveis de testosterona e afeta o número e a motilidade dos espermatozoides. Processos prolongados de estresse são prejudiciais, alterando o equilíbrio hormonal e a produção de esperma. O sono de qualidade é fundamental, pois a falta dele afeta diretamente a espermatogênese.
A informação genética e epigenética transmitida pelo esperma paterno, incluindo microARNs, pode modular a expressão gênica e influenciar a saúde da descendência. A dieta paterna, rica em ácidos graxos saturados ou pobre em nutrientes essenciais, pode impactar a qualidade espermática. Estudos em animais confirmaram a relação entre a dieta do pai e a saúde das crias, inclusive isolando o efeito de microARNs.
A atividade física paterna também pode afetar a descendência, e o sedentarismo pode alterar o tecido testicular. O consumo de drogas, como nicotina, cannabis ou álcool, impacta negativamente os descendentes, afetando o peso, o comportamento e a saúde geral.
Substâncias disruptoras endócrinas são tóxicas para a saúde reprodutiva masculina, e o tabaco, por exemplo, causa fragmentação do DNA espermático. A suplementação de ácido fólico, embora tradicionalmente voltada para mulheres, tem mostrado indícios de influência na saúde da descendência masculina. Antioxidantes são importantes para neutralizar radicais livres.
Em suma, a insistência em medidas higiênico-dietéticas gerais, como dieta adequada, exercício físico, não fumar, não beber e, na medida do possível, ser pai jovem, é crucial. A fertilidade masculina é um aspecto importante da saúde que afeta tanto homens quanto mulheres, sendo a alimentação, o exercício regular e o controle do estresse pilares fundamentais para otimizar a função reprodutiva.